A história nikkei — e a minha dentro dela
Esta não é só a minha história. É a travessia de cerca de 250 mil japoneses que partiram do porto de Kobe rumo à América do Sul a partir de 1908 — e o caminho de volta que tantos de nós, descendentes, fizemos um século depois. Role para baixo e percorra o tempo, de 1908 até hoje.
O Kasato Maru parte de Kobe
Em 1908, o Kasato Maru deixou o porto de Kobe levando os primeiros 781 emigrantes ao Brasil. Era o começo da maior comunidade nikkei fora do Japão — e dali em diante quase todos partiriam deste mesmo porto, entre a esperança e o medo.
O último chão japonês: o Centro de Emigração
A partir de 1928, o Centro Nacional de Emigração de Kobe foi a última parada no Japão de milhares de famílias — mais de 20 mil pessoas por ano nos anos 1930. Eram 7 a 10 dias de exames médicos rigorosos, aulas sobre o Brasil e camas de apenas 171 cm, antes dos 40 a 50 dias de mar rumo ao outro lado do mundo.
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O “país onde o dinheiro brotava das árvores” era só promessa. Os imigrantes derrubaram e queimaram a mata virgem a mão para plantar, e fizeram nascer rami, juta, pimenta e caqui onde não existiam. Em 1927 fundaram a Cooperativa de Cotia, que se tornaria a maior da América do Sul.
A guerra, o silêncio e a divisão
Rompidas as relações entre Brasil e Japão em 1942, a língua e os jornais japoneses foram proibidos e a comunidade ficou no escuro. No fim da guerra ela se partiu entre os “kachigumi”, que não aceitavam a derrota, e os “makegumi” — um conflito doloroso. Ainda assim, em 1947 organizou-se para socorrer o Japão arrasado.
Além da lavoura: a ascensão e a diáspora
Retomada a imigração em 1952, os nikkei foram muito além da lavoura — empresas, bancos, medicina, direito. Em 1970, Fábio Yasuda tornou-se o primeiro ministro de Estado nipo-brasileiro. E não foi só ao Brasil: Peru, Argentina, Paraguai e Bolívia também receberam essa diáspora.
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Em 1971 partiu de Kobe o último navio, o Brasil Maru, e o centro fechou. Com a reforma da lei de imigração de 1990, o fluxo se inverteu: agora eram os nikkei que vinham trabalhar no Japão. Hoje somos cerca de 300 mil — mais do que os 250 mil que um dia partiram —, diante de novos desafios: escolas, intérpretes e o direito de pertencer.
Um século depois, mais pessoas voltaram do que um dia partiram. A história não terminou — ela só mudou de direção, e agora pede um Japão que saiba acolher.
Cresci ouvindo que minha família “tinha vindo de longe”. Só depois entendi que eu era a continuação de uma travessia começada em 1908.
Escrevo esta série para que essa história não se perca — e para que quem chega agora saiba que não começou do zero. Esta página é da nossa história; eu sou só mais um capítulo dela.
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Cada ensaio também vira um vídeo, com as fotos do arquivo e a história contada em português.